quarta-feira, 4 de abril de 2012

DEMÓSTENES, O FARISEU, E A IMPRENSA HIPÓCRITA

Por Maria Nassif
Colunista política, editora da Carta Maior, em São Paulo.
O rumoroso caso Demóstenes Torres (DEM-GO) não é apenas mais um caso de corrupção denunciado pelo Ministério Público. É uma chance única de reavaliar o que foi a política brasileira na última década, e de como ela – venal, hipócrita e manipuladora – foi viabilizada por um estilo de cobertura política irresponsável, manipuladora e, em alguns casos, venal. E hipócrita também.
Teoricamente, todos os jornais e jornalistas sabiam quem foram os arautos da moralidade por eles eleitos nos últimos anos: representantes da política tradicional, que fizeram suas carreiras políticas à base de dominação da política local, que ocuparam cargos de governos passados sem nenhuma honra, que construíram seus impérios políticos e suas riquezas pessoais com favores de Estado, que estabeleceram relações profícuas e férteis com setores do empresariado com interesses diretos em assuntos de governo.
Foram políticos com esse perfil os escolhidos pelos meios de comunicação para vigiar a lisura de governos. Botaram raposas no galinheiro.
Nesse período, algumas denúncias eram verdadeiras, outras, não. Mas os mecanismos de produção de sensos comuns foram acionados independentemente da realidade dos fatos. Demóstenes Torres, o amigo íntimo do bicheiro, tornou-se autoridade máxima em assuntos éticos. Produziu os escândalos que quis, divulgou-os com estardalhaço. Sem ir muito longe, basta lembrar a “denúncia” de grampo supostamente feita pelo Poder Executivo no gabinete do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes, então presidente da mais alta Corte do país. Era inverossímil: jamais alguém ouviu a escuta supostamente feita de uma conversa telefônica entre Demóstenes, o amigo do bicheiro, e Mendes, o amigo de Demóstenes.
Os meios de comunicação receberam a suposta transcrição de um grampo, onde Demóstenes elogia o amigo Mendes, e Mendes elogia o amigo Demóstenes, e ambos se auto-elegem os guardiões da moralidade contra um governo ditatorial e corrupto. Contando a história depois de tanto tempo, e depois de tantos escândalos Demóstenes correndo por baixo da ponte, parece piada. Mas os meios de comunicação engoliram a estória sem precisar de água. O show midiático produzido em torno do episódio transformou uma ridícula encenação em verdade.
A estratégia do show midiático é conhecida desde os primórdios da imprensa. Joga-se uma notícia de forma sensacionalista (já dizia isso Antonio Gramsci, no início do século passado, atribuindo essa prática a uma “ imprensa marrom”), que é alimentada durante o período seguinte com novos pequenos fatos que não dizem nada, mas tornam-se um show à parte; são escolhidos personagens e lhes é conferida a credibilidade de oráculos, e cada frase de um deles é apresentada como prova da venalidade alheia. No final de uma explosão de pânico como essa, o consumo de uma tapioca torna-se crime contra o Estado, e é colocado no mesmo nível do que uma licitação fraudulenta. A mentira torna-se verdade pela repetição. E a verdade é o segredo que Demóstenes – aquele que decide, com seus amigos, quem vai ser o alvo da vez – não revela.
Convenha-se que, nos últimos anos, no mínimo ficou confusa a medida de gravidade dos fatos; no outro limite, tornou-se duvidosa a veracidade das denúncias. A participação da mídia na construção e destruição de reputações foi imensa. Demóstenes não seria Demóstenes se não tivesse tanto espaço para divulgação de suas armações. Os jornais, tevês e revistas não teriam construído um Demóstenes se não tivessem caído em todas as armadilhas construídas por ele para destruir inimigos, favorecer amigos ou chantagear governos. Os interesses econômicos e ideológicos da mídia construíram relações de cumplicidade onde a última coisa que contou foi a verdade.
Ao final dos fatos, constata-se, ao longo de um mandato de oito anos, mais um ano do segundo mandato, uma sólida relação entre Demóstenes e a mídia que, com ou sem consciência dos profissionais de imprensa, conseguiu curvar um país inteiro aos interesses de uma quadrilha sediada em Goiás.
Interesses da máfia dos jogos transitaram por esse esquema de poder. E os interesses abarcavam os mais variados negócios que se possa fazer com governos, parlamentos e Justiça: aprovação de leis, regras de licitação, empregos públicos, acompanhamento de ações no Judiciário. Por conta de um interesse político da grande mídia, o Brasil tornou-se refém de Demóstenes, do bicheiro e dos amigos de ambos no poder.
Não foi a mídia que desmascarou Demóstenes: a investigação sobre ele acontece há um bom tempo no âmbito da Polícia Federal e do Ministério Público Federal. Nesse meio tempo, os meios de comunicação foram reféns de um desconhecido personagem de Goiás, que se tornou em pouco tempo o porta-voz da moralidade. A criatura depõe contra seus criadores.
N.L.: a suposta capa de Veja eu lambi do blog "O Cafezinho".

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

ÉPOCA: A SUB-VEJA

A revista Época, linha auxiliar da Rede Gloebbels, é uma sub-Veja. Seu logo é uma cópia descarada da revista alemã Focus e sua pauta segue a reboque do que a Veja publica.
Época tem também seus sub-colunistas: um deles é Guilherme Fiúza, um arremedo de Diogo Mainard e Reynaldo Azevedo. Os três são pagos exclusivamente para distorcer a realidade.
Esta semana, além de avacalhar com o enredo da escola de samba Gaviões da Fiel que vai fazer uma homenagem ao presidente Lula, Época publica um artigo absurdo escrito por Guilherme Fiúza sobre uma declaração da presidenta Dilma Rousseff.
Em discurso, Dilma Rousseff afirmou que quer acabar com a pobreza e fazer do Brasil um país de classe média. Todo mundo entendeu a presidenta, até o sub-Mainard, mas como ele tem a consciência vendida ao seu patrão e a alma ao diabo, escreveu o absurdo que reproduzo abaixo.
Fiúza é autor do livro-exaltação – Meu nome não é Johnny - ao maior traficante carioca nas décadas de 80 e 90. É a biografia de João Guilherme Estrella, um jovem de classe média alta que tornou-se o rei do tráfico na zona sul do Rio de Janeiro.
No artigo acima, o sub-Reynaldo Azevedo afirma que “Aparentemente, a doutrina Dilma substituiu a dialética pela aritmética: para resgatar os muito pobres é preciso acabar com os muito ricos.”
Acho que ele acredita no que escreve e tem medo de perder uma boca rica conquistada a duras penas.
Duro feito um coco, o sub-Mainard aplicou o golpe do baú em uma ricaça ingênua e deslumbrada – Narciza Tamborindeguy – que o levou a uma entrevista na TV Bandeirantes para ficar absolutamente calado.
De lambuja, o sub-Reynaldo Azevedo tornou-se ainda padrastro da filha do Boninho, aquele do BBB, e conseguiu um bico na TV Globo para fazer uma sub-colaboração na mini-série O Brado Retumbante.
Narciza, que, na entrevista, disse ter uma empregada mágica que utiliza uma “varinha de cordão” para arrumar seu apartamento, vai ficar horrorizada se ler o artigo e exclamar com aquela boca cheia de dentes:  “Ai, que absuuuuurdo!”.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

ESBBBÓRNIA AO VIVO NA TV

Pra mim, foi tudo armação. Porém, daí a sugerir que a maria chuteira - já transou com todo o time do Grêmio, palavras dela - uma safada juramentada, seria uma vítima vulnerável foi abusar do exagero.
Veja no vídeo abaixo – antes que a Globo o retire do Youtube – que ela assume uma posição apropriada para que o pseudo-estuprador a penetre: uma perna junto à cama e outra dobrada com o joelho pra cima. Ele está no meio das pernas dela, mexendo-se como quem pratica o ato sexual.
Ela se finge de morta, mas mexe com os braços por baixo da coberta. Depois, o cara sai e um terceiro a pega por trás. E a câmera filma tudo.

Como veem, ela não se relacionou apenas com um colega de programa. E vejam que ao final do vídeo ela está com as pernas totalmente arreganhadas. Por que a Globo filmou tudo e permitiu que as imagens fossem vazadas integralmente? Tudo pela audiência?
Os três agiram com toda a tranqüilidade de quem tinha a certeza da impunidade. Naturalmente, a cena fazia parte do script. A produção do programa deve ter oferecido algo a eles em troca daquela exposição infame.
O objetivo foi conseguido. Comenta-se o fato até no Japão. E até eu, que jamais assisti ao programa, estou escrevendo sobre o suposto estupro que aumentou a audiência do programa em 80%.
O que a Globo não previu é que a sociedade revoltada com o fato acionasse até o Ministério Público contra o absurdo sexual ao vivo e a cores.
E, para se redimir, convenceu a maria chuteira a prestar as declarações seguintes em que ela, na careta de pau, diz que estava com tesão e que houve apenas mão naquilo e aquilo na mão. Lembra que tirou o shortinho para dormir com os caras e de mais nada.

Tenho piedade de uma mulher tão linda como ela se prestar a tal ato obsceno para todo o país assistir. Em busca de notoriedade e dinheiro, ela já foi para o Azerbaijão com um jogador de futebol. Com um mínimo de talento poderia até conseguir uma ponta em alguma novela ou fazer publicidade de cerveja, mas, pelo jeito, vai atuar em filmes pornográficos.
Que a Globo promova e estimule tal situação ultrajante para a mulher não é nenhuma surpresa diante do que ocorre nas novelas. Existirão sempre as moniques para se sujeitarem à vontade global.
Somente gostaria de saber quanto vai receber o excluído para ficar calado.

domingo, 1 de janeiro de 2012

O NOVO SALÁRIO MÍNIMO

A partir de hoje, o salário mínimo passa a ser de R$ 622,00. Não é nada, não é nada, mas é o equivalente a US$ 332.00.
Até 2002, antes, portanto, dos governos do PT, a luta dos trabalhadores era por um salário mínimo de apenas US$ 100,00.
A elite dominante e o governo FHC, porém, mantinham o valor de US$ 70,00 com a justificativa de evitar a volta da inflação.
O Globo apoiava com desenvoltura e destemor o arrocho salarial em face do perigo inflacionário.
Agora, o mesmo O Globo noticiou o novo salário mínimo em sua primeira página com a seguinte manchete "Dilma corta R$ 0,73 do salário mínimo".
SEM COMENTÁRIOS.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

A PRIVATARIA TUCANA

Finalmente, hoje, um membro da Rede Gloebbels, reconhece a existência do livro de Amaury Ribeiro Junior que se tornou um fenômeno editorial em apenas três dias após o lançamento.
O livro está esgotado e a editora prepara a distribuição de mais 50 mil exemplares. É um sucesso estrondoso obtido apenas com a promoção feita pelos blogs e redes sociais.
A Folha de São Paulo dedicou um espaço interno para o livro sugerindo que se tratam de ilações do autor que teria sido contratado pela campanha da Dilma para montar um dossiê contra Serra.
Esquece a Folha que a Veja, quando ainda fazia jornalismo com seriedade, foi a primeira a publicar um libelo contra o principal acusado no livro – Ricardo Sérgio de Oliveira – um grande amigo de José Serra.
De toda a mídia, apenas a Carta Capital, que não faz parte da Rede Gloebbels, abriu espaço para o livro-reportagem que conta – e prova com documentos oficiais – toda a bandalheira com dinheiro público na onda de privatizações durante o governo FHC/Serra.
Amaury Ribeiro Junior, um jornalista renomado, é contratado da Rede Record que deu ampla cobertura à divulgação do livro após esgotar a primeira edição.
Como se vê na reportagem do Jornal da Record sobre o livro:

Na Record News, o livro também foi tema de reportagem:

Amaury Ribeiro Junior deu uma longa e cômica entrevista a Paulo Henrique Amorim:

Este é um modelo irrepreensível da atuação da Rede Gloebbels. Seguindo o conselho de Ricupero, o que é bom para a oposição eles escandalizam na primeira página; o que é ruim eles escondem.
Entrevistado, José Serra disse que o que há no livro é lixo. De fato, é. A começar pelos personagens.
O grande combatente da corrupção no país – o senador Álvaro Dias - aquele que está sempre disponível para fazer declarações contra os que são acusados pelos membros da Rede Gloebbels por quaisquer deslizes não quis fazer nenhuma declaração sobre o assunto.
A Veja desta semana preferiu atacar petistas de Minas Gerais e nem tocar no tema que está fervendo na internet. Porém, sua capa insinua que o livro é mais uma trama dos falsários petistas.
Fica assim provado que eles são contra toda a corrupção que possa existir no governo Dilma e no PT, mas nem ligam para a corrupção dos membros da oposição.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

TV GLOBO CONFESSA MANIPULAÇÃO

Por Marco Antônio Araújo

Ah, o tempo é senhor da razão. Se ainda havia alguma dúvida, acabou: A TV Globo conspirou contra a democracia, atentou contra os ideais republicanos, traiu sua audiência, manipulou imagens e ajudou a eleger o pior presidente da história deste País, Fernando Collor de Mello.
Fossemos uma nação honrada, com leis a serem respeitadas, tivéssemos uma Justiça para todos, a emissora da família Marinho deveria perder a concessão pública que a autoriza a manter uma emissora de TV.
E a confissão de culpa foi veiculada na Globo News. Com desfaçatez que beira o insulto, o então todo poderoso José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o famigerado Boni, admitiu, em entrevista a Geneton Moraes Neto, que, sim, a Globo ajudou a praticar a maior fraude eleitoral da história do Brasil.
Boni, sempre na primeira pessoa do plural, confessa que, durante o escabroso debate eleitoral com Lula, em 1989, agiu como assessor político de Collor, compondo seu visual e tendo a brilhante ideia de colocar as famosas pastas empilhadas que fizeram a todos crer que ali havia volumosas denúncias contra o candidato do PT. Detalhe sórdido: as pastas estavam vazias.

Boni não tocou no assunto da criminosa edição do debate que iria ao ar no dia seguinte, no Jornal Nacional. Nem precisava. Chegamos a essa conclusão por mero raciocínio lógico. Todos sabem como aquelas imagens distorcidas foram determinantes para a vitória do presidente que viria a sofrer o primeiro processo de impeachment das democracias ocidentais. Agiram como sabotadores, terroristas das comunicações, para colocar no Palácio do Planalto o homem corrupto de que de lá seria expulso pelo povo, a pontapés.
Também não precisava falar mais do que isso, o bonachão cínico. Talvez no futuro seja obrigado a dizer, nas barras de algum improvável tribunal. Sugiro que lhe deem o privilégio da delação premiada, para que a verdade também atinja os poucos homens que estavam acima de Boni, entre eles Roberto Marinho.
Collor nega que recebeu ajuda. Também, pudera. Só faltava ele ser sincero uma vez na vida. Mas percebam o ato falho, em entrevista à Folha de S. Paulo: “Nunca pedi a ninguém para falar com o Boni, meu contato era direto com o doutor Roberto". Ah, tá. Foi o chefão mesmo que o ajudou?
Já o atual diretor da Central Globo de Jornalismo, Ali Kamel, diz que toda essa sujeria "foi uma iniciativa do Boni, como cidadão, mesmo que com o consentimento de Roberto Marinho". Hum? Se houve consentimento, como separar pessoa física de pessoa jurídica? Esse Kamel, é só apertar que entrega tudo...
Se alguém não julga sérias e estarrecedoras as declarações do ex-capo da rede Globo, merecia perder a cidadania brasileira e ser deportado para algum país árabe que ainda viva sob o jugo de uma ditadura moribunda. Ignorar a gravidade dessas confissões é abdicar da própria cidadania.
Com a palavra, o Ministério Público, o Congresso Nacional, o Ministério das Comunicações, o Supremo Tribunal Federal e todos os brasileiros que foram vítimas desse crime que quase destruiu nossa República.

Transcrito do blog O Provocador

domingo, 27 de novembro de 2011

A CHEVRON E A OMBUDSWOMAN DA FOLHA

Após reunião com a Presidenta Dilma, a ANP decidiu suspender todas as atividades de perfuração da poderosa Chevron-Texaco no Brasil, a imprensa, então, que parecia proteger a gigante inglesa acordou e passou a noticiar o vazamento de petróleo no mar de Campos/RJ.
Creio que tal acidente foi o que melhor poderia ter acontecido neste momento em que se discutem os royalties do petróleo e tentam prejudicar o estado do Rio de Janeiro.
O despertar da imprensa culminou com o artigo que Suzana Singer, atual ombudswoman da Folha, publicou em seu próprio jornal e que reproduzo a seguir.
Pelos comentários dela, creio que seguirá o mesmo caminho de outros ombudsman daquele jornal: a demissão.
 

A grande imprensa foi passiva e demorou a perceber a gravidade do vazamento da Chevron

 

por Suzana Singer


O óleo subiu… e a gente não viu

Na cobertura do acidente ecológico na bacia de Campos (RJ), a mídia tradicional tomou um olé da blogosfera. A chamada “grande imprensa” demorou a entender a gravidade do que estava acontecendo, reproduziu passivamente a versão oficial e não fez apuração própria.
O vazamento ocorreu na segunda-feira, dia 7 de novembro, quando a pressão do óleo provocou uma ruptura do revestimento do poço. O líquido começou a subir pela coluna de perfuração e vazou também pelas fissuras do solo marinho.
A mancha de óleo foi vista no dia seguinte por petroleiros. Acionada, a norte-americana Chevron informou as autoridades, na quarta-feira, de que o vazamento acontecia em uma de suas plataformas.
No dia seguinte, agências de notícias divulgavam o incidente, com a porta-voz da Chevron falando em “fenômeno natural” e calculando um escape pequeno de óleo.
Só “O Globo” deu destaque ao assunto, mas em um texto tão editorializado que perdia o foco do acidente. O que acontecia no campo do Frade era só mais uma prova da “necessidade de Estados produtores de petróleo terem uma fatia maior dos royalties”. A Folha limitou-se a dar uma pequena nota.
Veio o fim de semana, quando a inércia toma conta das Redações. “Mercado” publicou no sábado, dia 12, uma capa sobre a queda do lucro da Petrobras e, no domingo, um imenso infográfico mostrando como funcionam as sondas de perfuração, sem fazer ligação com a Chevron. Sobre o acidente, só uma nota registrava que o vazamento aumentara.
Enquanto isso, uma luz amarela tinha acendido na blogosfera. O assunto circulava nas redes sociais. No dia 10, o geólogo norte-americano John Amos, 48, da SkyTruth, uma ONG ambientalista que trabalha com fotos aéreas, divulgou em seu site, no Twitter e no Facebook, as primeiras imagens da mancha.
O jornalista Fernando Brito, do blog “Tijolaço.com”, já dizia que a “história estava mal contadíssima”, porque “não é provável que falhas geológicas capazes de provocar um derramamento no mar deixem de ser percebidas nos estudos sísmicos que precedem a perfuração”.
No dia 15, a SkyTruth volta à ação e publica mais duas fotos mostrando que a mancha tinha crescido. “É dez vezes maior do que a estimativa da Chevron”, aposta Amos.
Instigados pelos blogs, leitores começam a cobrar: “A senhora acredita que a cobertura está correta?”, “E se fosse a Petrobras?”.
Só com a entrada da Polícia Federal no caso, a Folha e seus concorrentes começaram a se mexer de fato. O conselho jornalístico “follow the money” virou no Brasil, por preguiça, “follow the police”.
No dia 17, com o inquérito policial aberto, o assunto finalmente foi capa de “Mercado” e ganhou um tom cético -pela primeira vez se aponta possível negligência da empresa. De lá para cá, toda a imprensa subiu o tom e, numa tentativa de compensar o cochilo inicial, vem cobrando duramente a Chevron, que admitiu “erros de cálculo”.
Não é mesmo fácil saber o que acontece em alto-mar, mas, um ano e meio depois da grande tragédia ambiental do golfo do México, é indesculpável engolir releases divulgados por petrolíferas.
Além de recorrer a ONGs e especialistas, os repórteres poderiam ter procurado os petroleiros. O sindicato tinha divulgado uma nota no dia 10. “Os jornais brasileiros foram decepcionantes”, diz C.W., funcionário da Petrobras que sentiu o cheiro do vapor de óleo cru, mesmo estando a cerca de 15 km do local.
Para evitar que seu nome aparecesse, ele pediu à namorada que avisasse a mídia. Ela escreveu para a Folha e para o “Estado” no dia 11:
“Boa noite, Ainda está vazando óleo na bacia de Campos, o vazamento já percorreu quilômetros. É necessário averiguar, pois noticiaram o ocorrido, mas não deram a devida atenção.”
O caso Chevron mostra que faltam jornalistas especializados em cobrir petróleo, o que é grave num país que tem uma estatal do tamanho da Petrobras e que pretende ser uma potência da área com a exploração do pré-sal.
John Amos, da SkyTruth em West Virginia, deixa um alerta: “Se todos esquecerem rapidamente o acidente, porque o vazamento não foi tão grande quanto o do México, aí sim será uma tragédia. Essa é uma oportunidade de questionar a gestão da exploração em águas profundas, em territórios arriscados. Porque haverá um novo acidente. E vocês devem estar preparados para isso”.